segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pelo menos, por aqui não é proibido...

Pastor do Monte, Tão Longe de Mim Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha? A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te? Não, nem a ti nem a mim, pastor. Pertence só à felicidade e à paz. Nem tu a tens, porque não sabes que a tens. Nem eu a tenho, porque sei que a tenho. Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol, Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas noutra cousa indiferentemente, E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol. Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Dieting: day 9

domingo, 11 de julho de 2010

Como sobreviver ao Verão...

A Vida A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua mais que perfeita imprecisão, os dias que contam quando não se espera, o atraso na preocupação dos teus olhos, e as nuvens que caíram mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações a abrir-se para dentro e para fora dos sentidos que nada têm a ver com círculos, quadrados, rectângulos, nas linhas rectas e paralelas que se cruzam com as linhas da mão; a vida que traz consigo as emoções e os acasos, a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram e dos encontros que sempre se soube que se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo o rosto sonhado numa hesitação de madrugada, sob a luz indecisa que apenas mostra as paredes nuas, de manchas húmidas no gesso da memória; a vida feita dos seus corpos obscuros e das suas palavras próximas. Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"

Dieting: day 8

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Calor de ananases!...

Bom e Expressivo Acaba mal o teu verso, mas fá-lo com um desígnio: é um mal que não é mal, é lutar contra o bonito. Vai-me a essas rimas que tão bem desfecham e que são o pão de ló dos tolos e torce-lhes o pescoço, tal como o outro pedia se fizesse à eloquência, e se houver um vossa excelência que grite: — Não é poesia!, diz-lhe que não, que não é, que é topada, lixa três, serração, vidro moído, papel que se rasga ou pe- dra que rola na pedra... Mas também da rima «em cheio» poderás tirar partido, que a regra é não haver regra, a não ser a de cada um, com sua rima, seu ritmo, não fazer bom e bonito, mas fazer bom e expressivo... Alexandre O'Neill, in 'De Ombro na Ombreira'

Dieting: day 2