quinta-feira, 25 de novembro de 2010


A Imagem da Vida



Nada espero da boca vencedora
entre os arbustos
do som que a transformou Sopra por entre
eles o ar gerado na campânula
viva

Nada pode suster a invencível
imagem da vida
Que poderá dizer
na exacta paragem
a boca atormentada?

Tento ouvi-la

Como um túmulo emerge do som vivo
vencida

Gastão Cruz, in "Campânula"

Pink overload!!!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Receituário

Ser


Cansada expectativa tão ansiosa
que ser só eu na minha vida espalha!
Na longa noite em que se tece a malha
do que não serei nunca, fervorosa

minha presença rútila e curiosa
arde sombria como um arder de palha,
curiosa apenas de saber se goza
o voar das cinzas quando o vento calha

lá onde o levantá-las é verdade.
Inutilmente se mistura tudo,
que a mesma ansiedade, já esquecida,

de novo recomeça. Mas quem há-de
contrariá-la? Eu não, que não me iludo:
Viver é isto, quando se é só vida.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

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terça-feira, 23 de novembro de 2010


Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor


foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos

estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

Al Berto, “O Medo”

Pink overload!!!

Receituário

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Receituário

A Guerra


E tropeçavam todos nalgum vulto,
quantos iam, febris, para morrer:
era o passado, o seu passado — um vulto
de esfinge ou de mulher.

Caíam como heróis os que não o eram,
pesados de infortúnio e solidão.
(Arma secreta em cada coração:
a tortura de tudo o que perderam.)

Inimigos não tinham a não ser
aquela nostalgia que era deles.
Mas lutavam!, sonâmbulos, imbeles,
só na esp'rança de ver, de ver e ter
de novo aquele vulto
— imponderável e oculto —
de esfinge, ou de mulher.

David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão"

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