terça-feira, 28 de setembro de 2010

O pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia!...


Só os Lábios Respiram


Só os lábios respiram. Simples gesto vivo, 
exílio do som onde se oculta o pavor da 
palavra, pátria salgada cerrada no vazio 
da casa de velhos deuses ávidos de preces. 
Na garra da águia se fecha e rompe a boca, 
templo e entranha, prodígio e anel 
do eco, sinal esparso do caído concerto 
da vida. Por estes soberbos montes, estas 
rasas colinas, estas águas circulantes, 
vai o grito da cegueira, o delírio lasso 
na manhã, a saciada loucura do escuro 
nome nocturno. Como um fragor dos céus, 
caminha o canto agudo das árduas cigarras 
perseguindo a funesta morte. Por esta 
paisagem parda, que lábios me guardam 
do próximo desastre, a mudança em ave, 
cio ou sal, erva ou peixe, cicatriz ou 
mito, veia ou água? Que lábios respiram 
na coisa mortal que serei após o termo 
da eterna efemeridade deste meu corpo, 
coma de luz, deste desejo, rijo resíduo, 
deste pensamento, disfarce ou máscara, 
deste rapto do tempo, deste 
coração que começa? 

Orlando Neves, in "Lamentação em Cáucaso"




segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia!...

Outono


Com a carga de frutos maus maduros,
Nessa estação viril entrei do Outono.
Bradou-me o Desengano, de seu trono:
«Larga os pomos que trazes, tão impuros!

«Não soubeste colher outros mais puros,
«Desgraçado mortal, frouxo colono?
«Isso é que hás-de oferecer da vida ao Dono?
«Um mau agricultor tem maus futuros.

«Pois que inda tens vigor, tem mais juizo!»
O Desengano amigo me dizia.
Mas eu, surdo me fiz ao sábio aviso,

As rédeas não colhi da fantasia,
Deixei corrê-la à solta, sem mais siso,
Pois isso frutos podres só colhia.

Francisco Joaquim Bingre, in 'Sonetos'


domingo, 26 de setembro de 2010

O pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia!...

Outunal


Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago...

Veludos a ondear... Mistério mago...
Encantamento... A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"


sábado, 25 de setembro de 2010

Cores de Outono (a evitar) - parte III

O pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia!...



Em uma Tarde de Outono


Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac, in "Poesias"



sexta-feira, 24 de setembro de 2010


A Poezia do Outomno


Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
São como estradas liquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O chale pedem a quem vae passando...
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
As lavandiscas noivam piando, piando!

O orvalho cae do céu, como um unguento.
Abrem as boccas, aparando-o, os goivos...
E a larangeira, aos repellões do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cae... E, á falta d'agoa, rega
O val sem fruto, a terra arida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

Tardes de outomno! ó tardes de novena!
Outubro! Mez de Maio, na lareira!
Tardes...
    Lá vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos céus, a eterna freira!

António Nobre, in 'Só'



Cores de Outono - Parte II

O pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia!...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Cores de Outono - Parte I







Que Farei no Outono quando Tudo Arde
Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono

Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz

Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se

prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde

Gastão Cruz, in "As Aves"



O pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia!...

Outono