sexta-feira, 18 de abril de 2008


Caranguejola


Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre p'lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P'lo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
P'ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P'ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C'o a breca! levem-me p'rá enfermaria -
Isto é: p'ra um quarto particular que o meu pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá Carneiro

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Henri Matisse





É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

David Mourão-Ferreira

terça-feira, 15 de abril de 2008

MENEZ

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nossos lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

Pablo Neruda


segunda-feira, 14 de abril de 2008

ANTÓNIO DACOSTA




ENCICLOPÉDIAS

O risco espiritual das enciclopédias é mínimo. Muita ciência e muita arte empilhada dão um conforto agradável. O incrível, sobretudo quando não se acredita já em fadas, é para os poetas que nunca tiveram enciclopédia, que se esgotam a aprender na vida o que poderiam aprender na leitura pacata e burguesa deste monumento do saber. Enfim, há gostos para tudo, e o das enciclopédias é bem deste nosso tempo «vulgarizador» de tudo quanto há.

António Dacosta

domingo, 13 de abril de 2008

Niki de Saint-Phalle




Considerar todas as coisas que nos sucedem como acidentes ou episódios de um romance, a que assistimos não com a atenção senão com a vida. Só com essa atitude poderemos vencer a malícia dos dias e os caprichos dos sucessos.

Bernardo Soares

sábado, 12 de abril de 2008

PIET MONDRIAN


- Glória -


A glória é como uma terrível catástrofe,
pior que a casa incendiada; enquanto
se abate a trave-mestra, o fragor
da destruição repercute-se cada vez mais depressa;
e tu contemplas tudo aquilo, inane
testemunha da danação.


Como uma bebedeira a glória devora
a casa da alma, revela que trabalhaste
para coisa pouca: para ela-
ah, queria que esse beijo traiçoeiro nunca tivesse
molhado a minha face: queria
fundir-me, só, para sempre, na obscuridade, na noite.

Malcolm Lowry

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Antoni Tàpies



ESCRITO NUM LIVRO ABANDONADO EM VIAGEM

Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.

Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem do passado nem do futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:

Fui, como ervas, e não me arrancaram.



(Álvaro de Campos)


quarta-feira, 9 de abril de 2008

MANET




Nas ruas de Lisboa


Veio avisar

Veio com rosto

de sombra:

morrerá um poeta

nas ruas de Lisboa.

Chove muito,

a chuva lavará

o seu cadáver.

Alguém dirá

o seu nome

alguém lhe fechará

os olhos

que ele desejava

abertos

sobre o mar


Y. K. Centeno




terça-feira, 8 de abril de 2008




Os Nautas

Para a Maria Gabriel

Quando até sobre a tarde navegavam
a luz que dentro vinha sobrepunha
a lantejoula aguda de outro sol
ao passo opaco, idêntico, cercando
os braços intranquilos, a surpresa
que só de pressentida lhes doía.

Ao frio sal que sob os pés sentiam
e à escuridão mais fundo, ao sonolento
e bruto som da corda e da madeira,
às dores de fome e ao gemido fraco
duma saudade parda, à solidão
sem espelho, à gula insaciada, ao medo

— a tudo combatia uma paixão
neles tão nova, nevoenta outrora,
qual a de ver, de ver de olhos abertos
até sentir no roçagar dos dedos,
a mínima paisagem, mais total
que os montes lerdos, pátrios e trocados:

a crispação da vela, o peixe lento
de súbito surgindo, ignotas flores,
cores purulentas, vasto e escasso espaço
para estrídulos pássaros abertos
e outra vida mor,
e ainda bruma
que não sabem se é deste ou doutro sonho.


Pedro Tamen


RENÉ MAGRITTE



segunda-feira, 7 de abril de 2008

Carlo Carrà




RUY CINATTI






REGRESSO ETERNO


Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,

Submersos na escuridão das árvores

Como na alma o rumor de um regato,

Insistente e melódico,

Serpeando entre pedras o fulgor de uma ideia,

Quase emoção;

E folhas que caem e distraem

O sentido interior

Na natureza calma e definida

Pela vivência dum corpo em cuja essência

A terra inteira vibra

E a noite de estrelas premedita.

A noite! Se fosse noite. . .

Mas os meus passos soam e não param,

Mesmo parados pelo pensamento,

Pelo terror que não acaba e perverte os sentido

A esquina do acaso;

Outros mundos se somem,

Outros no ar luzes reflectem sem origem.

É por eles que os meus passos não param.

E é por eles que o mistério se incendeia.

Tudo é tangível, luminoso e vago

Na orla que se afasta e a ilha dobra

Em balas de precário sonho...

Tudo é possível porque à vida dura

E a noite se desfaz

Em altos silêncios puros.

Mas nada impede o renascer da imagem,

A infância perdida, reavida,

Nuns olhos vagabundos debruçados,

Junto a um regato que sem cessar murmura.

Ruy Cinatti

domingo, 6 de abril de 2008


Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.

Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.

José Agostinho Baptista


sábado, 5 de abril de 2008

Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas

-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)

José Gomes Ferreira