Sábado, 18 de Julho de 2009

O Ideal

Nunca poderá ser pálida bonequinha,
Produto sem frescor qual manequim de molas,
Pés para borzeguins, dedos p'ra castanholas,
Que há-de satisfazer almas como esta minha.

Eu deixo a Gavarni, poeta de enfermaria,
Seu rebanho gentil de belezas cloróticas,
Porque nunca encontrei n'essas plantas exóticas
A rubra flor que anela a minha fantasia.

Meu torvo coração, na angústia que o oprime,
Sonha Lady Macbeth, alma fadada ao crime,
Pesadelo infernal que um Ésquilo criou;

E contigo também, ó Noite grandiosa,
Filha de Miguel-Anjo, esfinge misteriosa,
Sereia colossal que algum Titã gerou!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"


Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Hello Kitty: everything!... Telemóvel fofo


A Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Natália Correia


Quinta-feira, 16 de Julho de 2009



Quando da bela vista e doce riso

Quando da bela vista e doce riso,
Tomando estão meus olhos mantimento,
Tão enlevado sinto o pensamento
Que me faz ver na terra o Paraíso.

Tanto do bem humano estou diviso,
Que qualquer outro bem julgo por vento;
Assim que, em caso tal, segundo sento,
Assaz de pouco faz quem perde o siso.

Em vos louvar, Senhora, não me fundo,
Porque quem vossas cousas claro sente,
Sentirá que não pode merecê-las.

Que de tanta estranheza sois ao mundo,
Que não é de estranhar, Dama excelente,
Que quem vos fez fizesse Céu e estrelas.

Luís Vaz de Camões



Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

O Verão por aqui...

GeekAlerts





LINHA DE RUMO

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em meu redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campo de flores
E silvas...

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

Ruy Cinatti

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Revolução Francesa - 14 de Julho

Poema do fecho-éclair

Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de oiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.

Na mesa do canto
vermelho damasco,
e a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da Terra,
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safiras, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo,
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho-éclair.

António Gedeão

Hello Kitty: everything!... Micro-ondas

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Hello Kitty: everything!... Taser

GeekAlerts


A manhã raia. Não, a manhã não raia.

A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma cousa abstracta, está, não é uma cousa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos manhã;
Por isso não há vantagem em pôr nomes errados às cousas,
Nem mesmo em lhe pôr nomes alguns.
Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

Domingo, 12 de Julho de 2009


Retrato da beleza nova e pura

Retrato da beleza nova e pura
Que com divina mão, divino engenho,
Amor retratou na alma, onde vos tenho
Das injúrias do tempo mais segura:

Não mostreis aspereza em tal brandura,
Por vos vingar de mim, vendo que venho
A tanta confiança que detenho
Os olhos em tamanha formosura.

O resplendor do Céu, sem dar mais pena
A quem olha seus olhos em direito,
A vista só por breve espaço assombra;

Mas vossa luz mais clara, mais serena,
Juntamente me cega e abrasa o peito:
Vede o Sol que fará, de que sois sombra!

Diogo Bernardes

Sábado, 11 de Julho de 2009

Hello Kitty: everything!!... Campismo



Em que estado meu bem, por ti me vejo 

Glosando o mote:
"Morte, Juízo, Inferno e Paraíso"


Em que estado meu bem, por ti me vejo,
Em que estado infeliz, penoso, e duro!
Delido o coração de um fogo impuro,
Meus pesados grilhões adoro e beijo.

Quando te logro mais, mais te desejo;
Quando te encontro mais, mais te procuro;
Quando me juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.

Assim passo, assim vivo, assim meus fados
Me desarreigam d'alma a paz e o riso,
Sendo só meu sustento os meus cuidados;

E, de todo apagada a lua do siso,
Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados
Morte, Juízo, Inferno e Paraíso.

Bocage

Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Um Blog de Verão!





Hello Kitty: everything!!... Pópó


O céu

Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.

Luís Miguel Nava

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Dava a última camisa por um poema

Dava a última camisa por um poema.
Domingo ao fim da tarde só restam cinzas.
Todos. Tudo inteiramente consumido. Tudo,o quê?
Segunda, sobrava alguma palavra intacta na lareira?

Terça
tão comprida como um ano

quarta, outra vez a esperança
Não, sem poema não se pode viver!

Quinta a memória entra em pânico
A pouca claridade que restava anoiteceu

também na sexta as vagonetas com o meu minério
perdem-se no túnel.

Sábado:
trabalho em vão!
Domingo tudo recomeça e voltava a dar
a última camisa por um poema

Ján Kostra

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O repouso do guerreiro

Depois de ter andado bastante tempo de um lado para o outro,voltou a casa, já com 50 anos.
Trazia um bicho. Uma panterasinha negra de seis meses, cheia de ternura, amizade e dentes.
Então resolveu ficar sentado, olhando a televisão, os livros, alguma música e várias bebidas.
Três anos depois ou talvez um pouco mais, não estou certo, alguns amigos acharam graça ir visitá-lo.
Foram.
Bateram à porta.
Aparecerem dois meninos a abri-la. Dois meninos escuros, com dentes eficazes e sorriso amigo.
Rosnavam ternamente.

Mário Henrique Leiria

Hello Kitty: everything!!... Vibradores


Terça-feira, 7 de Julho de 2009

O Verão por aqui continua assim...




Eram uma vez duas e um quarto da manhã à porta do dancing «o Canário».

Pela Cidade ia conspiração, de luz acesa e janela aberta, tudo euforia de civis de civismo e baixas patentes descomandáveis. E eu vinha duma sessão dessa música. Horas longas de tabaco e copos de água inúteis, que me traziam ensopado em fúrias lentas. Por isso, a finais de reunião, entrara pensando «O Canário» com intensidades de arrastar comigo um subversor muito alto e magro.

Ele suava nome, Sancho. E porque era enorme e quase famigerado avançou adiante. Entrámos como um iate de escaler à arreata.

Sentados no bar, o Sancho encolheu o nariz.


«Loca de burgueses», disse. Mas sorria e afagava-me um ombro. Talvez para lembrar que,
de sua ideia expressa minutos antes, tínhamos
noite ganha. O que, na minha inconfessa, significava irmos perder comboios sucessivos de qualquer mudança válida nos ritmos de ser gente e em País.

Eu pus olhar a farejar a sala até que parou de pata no ar. Peguei no copo e saltei do bar sem prevenir o Sancho por coisa diferente dum sorriso manso.

Fui sentar-me, grupo descortinado num recanto, e perguntei dez coi
sas para meter no meio delas «Onde pára a Zana?». «Olhe-a», disse um rapaz pintor.

Havia mesmo ao pé da nossa mesa um par em dança lenta, e era ela. Nunca eu viria a saber qual homem segurava tal mulher. Dois segundos depois de a ter olhado viu-me, e sorriu-se em contraponto.

Estou sentado num dancing e tenho a mão ainda em volta de uma bebida de pressão de ar.

Às vezes, acontece num sítio destes e em hora assim que o pecado original se derreteu num shaker, acabando-se a mortalidade infantil e a Polícia. Sinto essa harmonia. Por cima dos ombros cansados, como um xaile de leveza dum suspiro de gato. Pelas luzes das mesas e fumo nos olhos
trotam as mais certeiras notas de piano.

Ando a treinar-me para conspirador, e até deixei um Sancho no ben
galeiro. Permitam-me, porém: que arregace outro género de mangas e talvez a minha noite não morra sem uma pitada de seriedade.

Há exactamente dez segundos que perguntei dez coisas. Ouvi então um homem de pincéis que me disse «Olhe-a», e atingiu ao fazê-lo a sua razão, de ter nascido, crescido e hesitado, pintadamente. A partir desse instante em que me disse «Olhe-a» (com a autoridade de ser pessoa viva, que pintava) a missão dele no mundo, pareceu-me, atingiu o fim. E eu sorri das telas todas que porventura ainda pintaria. Tal os anjos, à gargalhada por cada dinossauro nado após a Evolução ter decidido despedir esse bicho.

Com os olhos na mulher encosto-me aos acordes do pianista Epaminondas, como quem se apoia às cordas dum ringue. Ela vê-me e nem me deixa o tempo de pensar: começa sorrindo, em contraponto.

Larga imediatamente o tipo - «estou cansada» - e vai sentar-se sem
olhar. Sem me deter, toco-lhe dois dedos num ombro - «Olá Zana» -; e através da sala até chegar de novo ao bar.

Que saí daquela mesa para outra faina senão sentar-me outra vez chez Sancho: nenhum dos circunstantes adivinharia.

Portanto, uma fracção de tempo em que ela sorriu. Em contraponto. Fenómeno andor de procissão. Tambores que o precederam e fanfarras ladeantes merecem narração, é certo. E mais merecem, se possível: escrita. Tempo e trabalho, inevitavelmente; pois se trata de numerosa coisa e muita gente, e agitada. Milhões, assim por alto. Mas tudo isso periclita como um universo de loiça das Caldas; que se escaqueirará ou (o que seria pior) permanecerá cristalizado - e portanto ridículo se não localizarmos desde o início o ponto estratégico que legaliza o facto de eu estar escrevendo: um sorriso; que me atravessou o amor próprio como um torpedo varando em plena noite um paquete de luxo iluminado; e que ficou sendo para sempre e desde sempre o lugar geométrico dos meus dias sem nome. Ali, numa escassa fracção de tempo, perdi-me e reencontrei-me logo, cabelo doutra cor e roupa até então desconhecida.

Mais do que morrermos todos, custa-me a dificuldade de dar forma escrita ao que acabei uma vez mais de rabiscar: que, sentado no bar e novamente ao lado do Sancho, comecei então a desesperada carreira de impotência que tem sido a minha. Assinalada por revoadas de páginas escritas mentalmente, humilhação raivosa de Filipe arremessando esquadras tantas às canelas duma Inglaterra impermeável.

Pedi um vodka, temendo de antemão quanto me poderia suceder: viverei até ao fim de mim rondando um sorriso símbolo? Como um alcoólico sem tustas, do lado de fora do local onde se bebe? Mas entrar escrevendo. Nada mais.

Querida Zana:

Estou sentado numa esplanada de Azeitão. O que não é de todo irreverente, se considerarmos como o tempo mexe.

Há cinquenta e sete mil e quinhentos lustros que ficaste morta: de
Norte a Sul e Leste e Oeste. O que - como adivinhas - perfaz uma cruz à escala natural e deixa uma certa parte de mim à vontade para se escrever. Pela primeira vez em tantos anos.

Poderia, até, dirigir-me a qualquer daqueles que então mais te rodeavam, nomeadamente os teus irmãos. E o incestuoso primo Jaime, o teu marido e outros miúdos mais crescidos. Havia nessa matulagem toda - ah, disso estou certíssimo - suficiente de ti para me bastar, nesta manhã com pó de Agosto meio antigo.

(Lembras-te de como te irritava a história do telefone? Quando eu marcava o número e respondia a Teresa. Eu falava com ela, quarto de hora, e desligava. Nem sempre quiseste aceitar a minha versão das coisas. Ora, nesse ponto só esta te podia esclarecer. Porque - e tanta vez to expliquei e tu a reguingar - a tua voz telefónica era um dos catorze espíritos que velavam o teu trono, o sorriso de que aqui tão imperfeitamente me ocupo. Queria lá saber que o motor humano desse som fosse às vezes a voz duma tua filha).

Jurei a mim mesmo acabar este trecho antes de me levantar daqui, exactamente porque estou com medo de sentir a caneta encolher-se numa nega, uma vez mais.

Vezes e vezes debati a hipótese de um sorriso significar, em contraponto. Concerto para nação e sorriso. Será isso, e possível?

Consultei historiadores, pugilistas, ligeiros pianistas, revolucionários orto e heterodoxos, algumas mulheres em meia-noites especiais. Coisa de estudar o assunto com a grande minúcia que ele merece. Não seria justo omitir que recorri também a certa gente muito ferida pela Terra, e que,
depois de convenientemente bem bebida, se torna imbatível na arte de abordar problemas insolúveis, passeando ao longo deles noites inteiras, de mãos atrás das costas e aquele ar solene e sensível de quem discute com a morte em frente do mar.

Não vou sequer resumir todas as baboseiras que aturei, esses falsos rumos temporários, minha investigação falhada.

A verdade está por desvendar, doutra maneira. Porque (lembro-me agora) o Sancho, ao sairmos de «O Canário» (onze minutos depois de nele termos entrado), me pediu que lhe pagasse o que eu bebera e que fora uma Sagres e um vodka polaco.

Ao entregar-lhe o dinheiro encontrei-me na rua e disse para o porteiro do dancing:

«Estou no topo dum cedro e vem aí um pintassilgo partir-me os olhos».

Foi a minha maneira quase rigorosa de informar o mundo. Parecia-me impossível ser-se mais feliz.

Nuno Bragança in A Noite e o Riso

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

O Verão por aqui...




A menina pó de arroz

A menina pó de arroz,
Nascida à beira do mar
Com o oceano nos olhos
E com sorrisos de lua
Nos seus lábios pequeninos
Que nunca ninguém beijou,
A menina pó de arroz,
Com seus cabelos de cobre
Onde o vento vem brincar,
Assoma à sua janela
P'ra ver a noite estrelada,
Para ouvir os sons da noite,
Para beber o luar.
Para ter em suas mãos
Macias, longas e brancas,
A noite tépida e branda,
A velha noite calada.
A menina pó de arroz,
Que por uma abreviatura
Do seu nome arrevesado
É chamada entre família
Por um nome miudinho
De marca de pó de arroz,
Com seu corpinho de fada
Que saiu de alguma fonte
Que há pouco perdeu o encanto,
Com a cabeça nas mãos,
Enquanto na casa dormem,
Veio pôr-se na janela
Para que a noite a beijasse.
A menina pó de atroz
Estará enamorada?


António Rebordão Navarro

Domingo, 5 de Julho de 2009



Introduction to Poetry

I ask them to take a poem
and hold it up to the light
like a color slide
or press an ear against its hive.
I say drop a mouse into a poem
and watch him probe his way out,
or walk inside the poem's room
and feel the walls for a light switch.
I want them to waterski
across the surface of a poem
waving at the author's name on the shore.
But all they want to do
is tie the poem to a chair with rope
and torture a confession out of it.
They begin beating it with a hose
to find out what it really means.

Billy Collins



Sábado, 4 de Julho de 2009

??????????



A Meeting

In a dream I meet
my dead friend.
He has,
I know, gone long and far,
and yet he is the same
for the dead are changeless.
They grow no older.
It is I who have changed,
grown strange to what I was.
Yet I, the changed one,
ask: "How you been?"
He grins and looks at me.
"I been eating peaches
off some mighty fine trees."

Wendell Berry

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009


I

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.


Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public
doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.


He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.


The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.


II

O the valley in the summer where I and my John
Beside the deep river would walk on and on
While the flowers at our feet and the birds up above
Argued so sweetly on reciprocal love,
And I leaned on his shoulder; 'O Johnny, let's play':
But he frowned like thunder and he went away.


O that Friday near Christmas as I well recall
When we went to the Charity Matinee Ball,
The floor was so smooth and the band was so loud
And Johnny so handsome I felt so proud;
'Squeeze me tighter, dear Johnny, let's dance till it's day':
But he frowned like thunder and he went away.


Shall I ever forget at the Grand Opera
When music poured out of each wonderful star?
Diamonds and pearls they hung dazzling down
Over each silver and golden silk gown;'
O John I'm in heaven,' I whispered to say:
But he frowned like thunder and he went away.


O but he was fair as a garden in flower,
As slender and tall as the great Eiffel Tower,
When the waltz throbbed out on the long promenade
O his eyes and his smile they went straight to my heart;
'O marry me, Johnny, I'll love and obey':
But he frowned like thunder and he went away.


O last night I dreamed of you, Johnny, my lover,
You'd the sun on one arm and the moon on the other,
The sea it was blue and the grass it was green,
Every star rattled a round tambourine;
Ten thousand miles deep in a pit there I lay:
But you frowned like thunder and you went away.

W. H. Auden



Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Um brinquedo amoroso




Água mineral de dieta ( porque as outras engordam imenso!)


Programa

Não queremos poesia,
Queremos mágicas, artifícios,
Procuramos tapar na existência fatais vazios
E apesar de imenso esforço, uma atrofia.

Mas o que sabem vocês outros da secreta elevação,

Dos sagrados e histéricos soluços da garganta a chorar,
Quando, consumidos pelo haxixe da alma em imersão,
Beijamos o primeiro degrau, para além de cujo limiar
Os deuses moram?

Wilhelm Klemm

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Matraquilhos...



Cerveja para crianças



GeekAlerts

O refrescante sabor do pepino?!


If I could tell you

Time will say nothing but I told you so,
Time only knows the price we have to pay;
If I could tell you I would let you know.

If we should weep when clowns put on their show,
If we should stumble when musicians play,
Time will say nothing but I told you so.

There are no fortunes to be told, although,
Because I love you more than I can say,
If I could tell you I would let you know.

The winds must come from somewhere when they blow,
There must be reasons why the leaves decay;
Time will say nothing but I told you so.

Perhaps the roses really want to grow,
The vision seriously intends to stay;
If I could tell you I would let you know.

Suppose the lions all get up and go,
And all the brooks and soldiers run away;
Will Time say nothing but I told you so?
If I could tell you I would let you know.

W.H. Auden

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Leite com sabor a leite materno...


Lay your sleeping head, my love

Lay your sleeping head, my love,
Human on my faithless arm;
Time and fevers burn away
Individual beauty from
Thoughtful children, and the grave
Proves the child ephemeral:
But in my arms till break of day
Let the living creature lie,
Mortal, guilty, but to me
The entirely beautiful.

Soul and body have no bounds:
To lovers as they lie upon
Her tolerant enchanted slope
In their ordinary swoon,
Grave the vision Venus sends
Of supernatural sympathy,
Universal love and hope;
While an abstract insight wakes
Among the glaciers and the rocks
The hermit's carnal ecstasy.

Certainty, fidelity
On the stroke of midnight pass
Like vibrations of a bell
And fashionable madmen raise
Their pedantic boring cry:
Every farthing of the cost,
All the dreaded cards foretell,
Shall be paid, but from this night
Not a whisper, not a thought,
Not a kiss nor look be lost.

Beauty, midnight, vision dies:
Let the winds of dawn that blow
Softly round your dreaming head
Such a day of welcome show
Eye and knocking heart may bless,
Find our mortal world enough;
Noons of dryness find you fed
By the involuntary powers,
Nights of insult let you pass
Watched by every human love.

W.H. Auden


Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Máquina de venda de cuecas (Japonesa, claro!)


A Volta


Tão só em prosseguir busquei sentido
e o caminho é sem regresso a quem caminha
por nenhum instinto além reconhecido.
Espaço meu ou de loucura, era sozinha.

Vinha de não sei onde, lar perdido
de mim mesma, ou infância. Vinha
quando apenas vi que recobrara o ido
antigo estar em tal estância, minha.

E tudo que abandonei, o a que deu termo
muda solidão pairando em grito ermo,
largo deserto visto em falso medo,

tudo que abandonei, faz companhia.
Enquanto, indo, um ocaso brando me assistia
eis que amanheço em mim, volto a ser cedo!


Maria Ângela Alvim

Domingo, 28 de Junho de 2009

Preservativos japoneses






VI
Quero crer-me este sentido
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).

Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).

Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.

Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes nocturnos tormentos
da mente se procurando,
da ideia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.

Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.

Maria Ângela Alvim

Sábado, 27 de Junho de 2009

E chove... Não devíamos estar no Verão?


Not so excellent tales of the cupcake (and friends)




Foi muito má ideia...








v

Moro em mim? No meu destino, largado

partido em mil?
Moro aqui? Demoraria
sempre aqui, sem me saber - fugindo sempre
estaria?
Eis um lugar. Degredo
(de quê?). Dimensão se perseguindo
num sonho? - Sim, que me acordo.
Tudo existe circunstante
e ninguém para me crer.
Sou eu o sonho,
momento da ausência alheia (que devasso quase fria).
Morte, vida recente,
subindo em mim a resina,
ungüento de noite, amor.

As sombras e seus véus,
tantos véus - o mais sucinto
preso a meu corpo (aparente?)
me divide em dois recintos.
Um deles sendo equilíbrio
noutro posso me conter.
Avanço no sono aberto
até a altura do dia,
fria, fria,
mais fria, minha pele
filtra a aurora - neste tempo
aquela hora, seu pulso de instante e ocaso.

Eis que me encontro. Limite
de transparência e contacto
entre a luz e meu retrato, na casta
parede - a louca?
Marulho d'água, caindo
dentro de mim, claridade.
Graça de mãos mais presentes,
que minhas mãos, já vazias
de sua forma, na palma.
Que gesto extenso as reteve
sempre além, configuradas?

E este azul, quase em branco
se desfazendo (na carne?).
Ah! Três retinas cortadas
de um prisma, se amanhecidas
nestes vidros, na vigília.
Ah! Três retinas pousadas
em ver, em ver contemplando
(ser, será o esquecimento
de quanto somos - pensando?).


Maria Ângela Alvim

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Tatuagens científicas







Continua a chover...

As cinco letras em vidro
É um estilete de luz
a imensidade de que és feita
e contorna um azul-sonho-neve
igual aos cabelos que descobri a saírem da tua boca
- dos teus olhos de imaginação
- dos teus lábios curvos de aurora.

Saímos
enquanto as pessoas olhavam admiradas o Arco do Triunfo
deixando escorrer dos bolsos fitas e serpentinas
para tudo se passar como no pássaro
para deixar objectivamente escrito
nas margens do rio
do Mar
- o continente submerso
- o navio de todos os amantes
por onde rola a carruagem em que viajamos
pintada de Liberdade e de Poesia
contigo a dormir sobre o meu peito.

POR ISSO EU SENTI SER FÁCIL O SUICÍDIO
FÁCIL E POSSÍVEL.

Fixou-se no muro da tua residência
sobre a porta que se abre ao visitante
um símbolo mágico e de cabala
- a oportunidade do meu regresso
- a história maravilhosa que te direi na viagem.

Procurei
nas folhas espalhadas pelo nosso leito
a recordação do que há-de vir
- apenas no esparso
- no diverso
- no acto simultâneo de defesa
- no viajar de aeróstato incógnito de distância
- na noite mágica

NA PRIMEIRA GRANDE NOITE MÁGICA QUE NÓS
TIVEMOS.

Abriu-se a janela que caminhava sozinha
e saiu um sonho simples de criança:

O METEORO DA TRANSFORMAÇÃO

pousado a um canto o meu Jogo de Cabala

(um montinho de quadrados,
de círculos, de triângulos,
dispostos geometricamente
sobre um tabuleiro grande)

o meu Tratado de Magia Humana

(um caminho de ogivas, um
relógio a dar horas sobre
um túmulo em pé, os postes
magnéticos, os cordões da angústia)

FALO - no Laboratório Mágico ao dar-se a aparição espon-
tânea de Lautréamont e Freud que traziam sobre as
sobrancelhas um corte fino a atravessá-Ias lado a
lado: -
Ao aparecer a mulher escandalosamente
vestida de vermelho
ele dirige-se para a jovem
e os outros passeiam sobre as rochas
onde fica oculto o corpo do homem que chega continuamente
MUDO APONTA O HORIZONTE.

(In A Intervenção Surrealista)



ANTÓNIO MARIA LISBOA


Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

GeekAlerts

Geek tattoo












Quero um cavalo de várias cores
Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?

Reinaldo Ferreira

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Fast food tattoo













Mudança de estação

para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio - uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda de noctílucos
estendida nesta mudança de estação

Al Berto


Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Os pêlos das orelhas mais longos do mundo ( Porquê? Para quê? )



Pernoitas em Mim


pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'


Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Edge of Twilight




A Invisibilidade de Deus

dizem que em sua boca se realiza a flor

outros afirmam:

a sua invisibilidade é aparente

mas nunca toquei deus nesta escama de peixe

onde podemos compreender todos os oceanos

nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo

é que por vezes morremos magros até ao osso

sem amparo e sem deus

apenas um rosto muito belo surge etéreo

na vasta insónia que nos isolou do mundo

e sorri

dizendo que nos amou algumas vezes

mas não é o rosto de deus

nem o teu nem aquele outro

que durante anos permaneceu ausente

e o tempo revelou não ser o meu

Al-Berto

O que as pessoas apreciam...

Animal não identificado ( Coreia )


Olho de atum ( Japão )


Carne de baleia ( Japão )


Ovos de formiga branca ( Bangkok )


Peixe vivo ( China )


Lagartos secos ( Japão )

Escorpiões e escaravelhos ( China )

Bicho da seda ( Chicago )

Pénis de bacalhau ( Ásia )

Domingo, 21 de Junho de 2009

Viagens

Relatividade

Vintage Tattoo: parte III









Verão!




A França!


Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Gloria, em plena paz.
Terras da Patria somem-se na treva,
Agoas de Portugal ficam, atraz...

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ancia em que jaz...

Ó Luzitania que te vaes á vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ella...)
Na minha Nau Catharineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa á gavea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!...

António Nobre, in 'Só'


Sábado, 20 de Junho de 2009

Vintage Tattoo: parte II











Shelley sem anjos e sem pureza


Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te,mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós

Eugénio de Andrade

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009













Vintage Tattoo: Parte I











O mar é longe,mas somos nós o vento


O mar é longe,mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira,até ser ele,
é doutro e mesmo,é ar da tua boca
onde o silêncio nasce e a noite aceita.
Donde estás,que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos,dedos ,sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes,fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen