quarta-feira, 14 de julho de 2010

Moimento Puseram a bandeira a meia-haste E decretaram luto na cidade, Responsos, coroas, círios – quanto baste Para iludir a eternidade. Teve o nome nas ruas, em moimentos: «Nasceu – morreu – tantos de tal – Poeta». Houve discursos graves, longos, lentos. - Venham todos os ventos Do planeta! Rasguem bandeiras, sequem flores; no céu Se percam orações, paters e glórias - Tudo isso é dor que não lhe pertenceu – Destruam as estátuas e as memórias; Que os discursos inúteis vão dispersos… - A homenagem a um Poeta que morreu É decorar-lhe os versos! António Manuel Couto Viana

Dieting: day 11

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pelo menos, por aqui não é proibido...

Pastor do Monte, Tão Longe de Mim Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha? A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te? Não, nem a ti nem a mim, pastor. Pertence só à felicidade e à paz. Nem tu a tens, porque não sabes que a tens. Nem eu a tenho, porque sei que a tenho. Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol, Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas noutra cousa indiferentemente, E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol. Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Dieting: day 9

domingo, 11 de julho de 2010

Como sobreviver ao Verão...

A Vida A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua mais que perfeita imprecisão, os dias que contam quando não se espera, o atraso na preocupação dos teus olhos, e as nuvens que caíram mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações a abrir-se para dentro e para fora dos sentidos que nada têm a ver com círculos, quadrados, rectângulos, nas linhas rectas e paralelas que se cruzam com as linhas da mão; a vida que traz consigo as emoções e os acasos, a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram e dos encontros que sempre se soube que se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo o rosto sonhado numa hesitação de madrugada, sob a luz indecisa que apenas mostra as paredes nuas, de manchas húmidas no gesso da memória; a vida feita dos seus corpos obscuros e das suas palavras próximas. Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"

Dieting: day 8

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Calor de ananases!...

Bom e Expressivo Acaba mal o teu verso, mas fá-lo com um desígnio: é um mal que não é mal, é lutar contra o bonito. Vai-me a essas rimas que tão bem desfecham e que são o pão de ló dos tolos e torce-lhes o pescoço, tal como o outro pedia se fizesse à eloquência, e se houver um vossa excelência que grite: — Não é poesia!, diz-lhe que não, que não é, que é topada, lixa três, serração, vidro moído, papel que se rasga ou pe- dra que rola na pedra... Mas também da rima «em cheio» poderás tirar partido, que a regra é não haver regra, a não ser a de cada um, com sua rima, seu ritmo, não fazer bom e bonito, mas fazer bom e expressivo... Alexandre O'Neill, in 'De Ombro na Ombreira'

Dieting: day 2

domingo, 4 de julho de 2010

O Futuro Sai da Fenda e da Ferida a geometria abre a linha para deixar passar a Imaginação. O FUTURO sai da FENDA e da FERIDA. Do que antes foi, hoje sai Sangue. Inundar o VAZIO: o FUTURO inunda o VAZIO. Porque todo o vazio tem por INIMIGO a Imaginação. Porque todo o vazio tem o Inimigo. Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

Dieting: day 1

sábado, 26 de junho de 2010

As Minhas Ansiedades As minhas ansiedades caem Por uma escada abaixo. Os meus desejos balouçam-se Em meio de um jardim vertical. Na Múmia a posição é absolutamente exata. Música longínqua, Música excessivamente longínqua, Para que a Vida passe E colher esqueça aos gestos. Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A Possibilidade de uma Ilha Minha vida, minha vida, minha muito ancestral Mal cumprido o meu primeiro voto Repudiado o meu primeiro amor, Precisei do teu retorno. Precisei de conhecer O que a vida tem de melhor, Quando dois corpos brincam com a felicidade E se unem e renascem sem fim. Dominado por uma dependência total, Sei o estremecimento do ser A hesitação em desaparecer, O sol que incide de través E o amor, onde tudo é fácil, Onde tudo é dado no momento; Existe no meio do tempo A possibilidade de uma ilha. Michel Houellebecq, in "A Possibilidade de uma Ilha"

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Se Andava no Jardim Se andava no jardim Que cheiro de jasmim! Tão branca do luar! .................................. .................................. .................................. Eis tenho-a junto a mim. Vencida, é minha, enfim, Após tanto a sonhar... Porque entristeço assim?... Não era ela, mas sim. (O que eu quis abraçar), A hora do jardim... O aroma de jasmim... A onda do luar... Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

terça-feira, 22 de junho de 2010

Demissão Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo de mais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos, se dependentes. José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Verão!

Não me Peçam Razões... Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não fiz a lei e o mundo não aceito. Não me peçam razões, ou que as desculpe, Deste modo de amar e destruir: Quando a noite é de mais é que amanhece A cor de primavera que há-de vir. José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

domingo, 20 de junho de 2010

Passado, Presente, Futuro Eu fui. Mas o que fui já me não lembra: Mil camadas de pó disfarçam, véus, Estes quarenta rostos desiguais. Tão marcados de tempo e macaréus. Eu sou. Mas o que sou tão pouco é: Rã fugida do charco, que saltou, E no salto que deu, quanto podia, O ar dum outro mundo a rebentou. Falta ver, se é que falta, o que serei: Um rosto recomposto antes do fim, Um canto de batráquio, mesmo rouco, Uma vida que corra assim-assim. José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"