domingo, 27 de dezembro de 2009


 
 
 
 
 
 

 



Saímos dos ruídos do inverno 
Saímos dos ruídos do inverno
e saímos do frio em que dormimos
e dormimos ainda ainda temos
sono igual ao inverno e

nada se mudou senão a luz
a saída da luz
que se esforçava no calor do rio
por achar o motor da sua húmida

súbita madrugada ali contida
no silêncio do rio na ferida
por onde pôde a árvore evadir-se da luz
e nada se mudou somente um rasgo
de claridade no clarão da água
rompeu do rio de súbito o motor 
Gastão Cruz
 

sábado, 26 de dezembro de 2009

Espírito pós-natalício...


 
 
 Ainda bem que o natal acabou
 
Ainda bem que o natal acabou
logo que soaram as doze
descolei os lábios da mesa
vomitei as doçarias todas
para cima das notícias
que anunciavam a morte
algures onde o natal
é regado com sangue
e as rolhas das garrafas
são tiros cegos e certeiros
matam velhos e crianças
em natal ou em belém
para o ano haverá mais 
se a dor aguentar até lá
nós aqui e eles no inferno
uma data é uma data
e é preciso comemorá-la
com sangue e com lágrimas
um dia os meus lábios
ficarão para sempre
agarrados à toalha de linho.
Carlos Alberto Machado
 


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal!

GeekAlerts




Natal 
 Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Fernando Pessoa 


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Ver a decoração das ruas!



 
Encontrei-me iluminado nos telhados
Encontrei-me iluminado nos telhados, 
era vago, era despovoado, era lindo.
Tinha a tristeza de uma cisterna
abandonada por preguiça de outras gerações. 
Agora, ainda posso ver o meu choro discreto
quando no meu voo
os olhos grandes me deixam ver o sol em pausa.

Além, mesmo além
- o silêncio regressava aos braços cansados e sábios 
para junto dos homens que volviam plácidos.
Além, mesmo além
o silêncio trazia no fundo chamas de queimar deuses e o próprio 
hálito dos deuses.
E queimava, queimava o solo vestido
hora a hora 
até que das chamas colhia o segredo da vida e da morte. 

Além, mesmo além
vago e despovoado eu caminhava mais um pouco
ainda com neve nos cabelos em ferida.

Que ninguém respire.
A hora não é de respirar,
reconheço.
No meu fato de espectador mal arrumado
exposto à porta de uma paróquia de condenados
não é de respirar,
reconheço.
Mais rei
acompanho a minha antiguidade
que parte nervosa para uma grande viagem.
A meio do dia
tomarei a meu gosto um pouco de moral no sangue.
E quando lá do sonho
os espelhos trouxerem mar
a chama singular e franzina
queimará o século e a fronte,
as sombras dos dedos nos seios,
os veleiros de imortalidade
cheios de palmos de terra,
até que lá do sonho eu não respire
que a hora não é de respirar,
eu reconheço.
Fernando Alves dos Santos
in A Única Real Tradição Viva 
Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa
de Perfecto E. Cuadrado

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Solstício de INVERNO!


 Passou o Outono já, já torna o frio... 
 Passou o Outono já, já torna o frio... 
– Outono de seu riso magoado. 
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado... 
– O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Aguas do rio, 
Fugindo sob o meu olhar cansado, 
Para onde me levais meu vão cuidado? 
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando, 
E, debaixo das águas fugidias, 
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias? 
– E, refractadas, longamente ondeando, 
As suas mãos translúcidas e frias...
 Camilo Pessanha